 esfregou furiosamente,
amaldiçoando o fumo. Engoliu outro trago de vinho e
observou seu lobo gigante devorando a galinha.
Cães moviam-se por entre as mesas, perseguindo as criadas.
Um deles, uma cadela preta vira--lata com longos olhos
amarelos, detectou o cheiro da galinha. Parou e meteu-se por
baixo do banco para obter uma parte. Jon observou o
confronto. A cadela soltou uma rosnadela profunda e
aproximou-se. Fantasma ergueu os olhos quentes e rubros,
em silêncio, e se fixou nela. A cadela soltou um desafio irado.
Tinha três vezes seu tamanho, mas Fantasma não se afastou.
Ergueu-se sobre ela e abriu a boca, mostrando as presas. A
cadela ficou tensa, ladrou uma vez mais, e depois pensou
melhor a respeito da luta. Virou-se e escapuliu, com um
último latido desafiador para salvar o orgulho. Fantasma
voltou a prestar atenção à refeição,
Jon sorriu e esticou o braço para lhe acariciar o pelo branco.
O lobo gigante olhou para ele, deu-lhe uma dentadinha gentil
na mão e novamente pôs-se a comer.
- Este é um dos lobos gigantes de que tanto ouvi falar? -
perguntou perto dele uma voz familiar.
Jon ergueu seus olhos, feliz, quando tio Ben lhe pôs a mão na
cabeça e desalinhou seus cabelos tanto quanto ele fizera com
os pelos do lobo.
- Sim - disse. - Chama-se Fantasma.
Um dos escudeiros interrompeu a história obscena que estava
contando para abrir lugar na mesa para o irmão de seu
senhor. Benjen Stark escarranchou-se no banco com pernas
longas e tirou a taça de vinho da mão de Jon.
- Vinho de verão - disse depois de provar. - Não há nada tão
doce. Quantas taças já bebeu, Jon?
Jon sorriu.
Ben Stark soltou uma gargalhada.
- Tal como eu temia. Ah, bem, Acho que era mais novo do que
você da primeira vez que fiquei verdadeira e sinceramente
bêbado - surrupiou de uma travessa próxima uma cebola
assada que pingava molho de carne e mordeu-a. A cebola
estalou.
O tio de Jon tinha feições angulosas e era descarnado como
um penhasco, mas havia sempre uma sugestão de riso em seus
olhos azul-acinzentados. Vestia-se de negro, como era próprio
de um homem da Patrulha da Noite. Hoje trajava um rico
veludo negro, com grandes botas de couro e um cinto largo
com fivela de prata. Uma pesada corrente de prata curvava-
se em torno do seu pescoço. Benjen observou Fantasma,
divertido, enquanto comia a cebola.
- Um lobo muito sossegado - observou.
- Não é como os outros - disse Jon. - Nunca solta um som. Foi
por isso que o chamei Fantasma. Por isso e porque é branco.
Os outros são todos escuros, cinzentos ou pretos.
- Ainda há lobos gigantes para lá da Muralha. Ouvimo-los nas
nossas patrulhas - Benjen Stark olhou longamente para Jon. -
Não costuma comer à mesa dos seus irmãos?
- Na maior parte das ocasiões - respondeu Jon em voz
monocórdia. - Mas hoje a Senhora Stark pensou que poderia
ser um insulto para a família real se um bastardo se sentasse
entre eles.
- Estou vendo - o tio olhou por sobre o ombro para a mesa
elevada na outra ponta do salão. - Meu irmão não parece
muito festivo hoje.
Jon também notara. Um bastardo tinha de aprender a
reparar nas coisas, a ler a verdade que as pessoas escondiam
por trás dos olhos. Seu pai observava todas as cortesias, mas
havia nele uma rigidez que Jon raramente vira antes. Pouco
falava, olhando o salão com olhos cobertos, sem nada ver. A
dois lugares de distância, o rei estivera toda a noite bebendo
muito. O rosto largo estava corado por trás da barba negra.
Fizera muitos brindes, rira sonoramente com todas as
brincadeiras e atacara todos os pratos como um faminto, mas,
ao seu lado, a rainha parecia tão fria como uma escultura de
gelo.
- A rainha também está zangada - disse Jon ao tio com uma
voz calma e baixa. - Meu pai levou o rei às criptas esta tarde.
A rainha não queria que ele fosse.
Benjen deitou ajon um olhar cauteloso e avaliador,
- Não deixa passar muitas coisas, não é, Jon? Podíamos fazer
uso de um homem como você na Muralha.
Jon inchou de orgulho.
- Robb é um lanceiro mais forte que eu, mas sou melhor
espadachim, e Hullen diz que me sento num cavalo tão bem
como qualquer outro no castelo.
- Notáveis realizações.
- Leve-me consigo quando regressar à Muralha - disse Jon
com súbita precipitação. - Meu pai me dará licença para ir se
lhe pedir, eu sei que dará.
Tio Benjen estudou seu rosto com cuidado.
- A Muralha é um lugar duro para um rapaz, Jon.
- Sou quase um homem feito - Jon protestou. - Vou fazer
quinze anos no próximo dia do meu nome, e Meistre Luwin
diz que os bastardos crescem mais depressa que as outras
crianças.
- Isso é verdade - disse Benjen, retorcendo a boca para baixo.
Tomou a taça de Jon, encheu-a de um jarro que encontrou ali
perto e bebeu um longo gole.
- Daeren Targaryen tinha só quinze anos quando conquistou
Dorne - disse Jon. O Jovem Dragão era um dos seus heróis.
- Uma conquista que durou um verão - o tio ressaltou. - Seu
Rei Rapaz perdeu dez mil homens na conquista do lugar e
outros cinquenta ao tentar mantê-lo. Alguém devia ter-lhe
dito que a guerra não é um jogo - beb